MUHERES, CADEIRAS E ALMOFADAS BORDADAS





A senhora sabe, aqui nós não bordamos almofadas...

de 2006, matéria original da revista Projeto, um artigo de Fernando Serapião escrito em 2004. O link da materia original deixo abaixo nos créditos. O titulo da matéria e a frase seca que Le Corbusier disse `a Charlotte Perriand foram o motivo da minha postagem, e até hoje é um dos artigos mais lidos lá no Multiply.

Hoje muita coisa mudou e certamente Le Corbusier teria outro pensamento e atitude ( é ?) e Charoltte Perrriand encontraria muitos argumentos para colocar essa afirmativa do mestre no seu devido lugar.
Se nada como um dia depois do outro, que dirá então um século depois do outro. O que não mudou foi a beleza e consistência do desenho da linha LC, um clássico, sempre revisitado e rejuvenescido, quando bem utilizado.




Tive a honra e o prazer de conhecer a dama Charlotte Perriand quando ela esteve no Brasil, há muitos anos atrás para prestigiar o lançamento das cores originais da cartela para a linha LC's, tirando então o mundo do preto e cromado e trazendo vida e jovialidade para aquelas lindas peças.
A dama participou de um evento no IAB para o lançamento e uma palestra patrocinada pela Cassina/Probjeto, ali ela foi questionada e sabatinada por uma platéia de arquitetos e estudantes e craque como ela só, tirou tudo de letra a ainda deixou o povo de quatro por ela, naturalmente!
A ternura daquele olhar, gestos delicados e um ar faceiro conquistou a todos. Não podia dar em outra: a cerimônia terminou em justa reverência por graça daquela figura descoladissima.
Conheci tambem a Fundação Le Corbuiser em Paris, que lugar especial! Tive o prazer de participar de uma aula de arquitetura, totalmente ao acaso, eu estava no lugar certo na hora certa, e os monitores extremamente gentis permitiram que eu e meu acompanhante assistissemos a aula depois que nos apresentamos arquitetos do Brasil. 

Vou reproduzir a postagem, a matéria integral por que vale a pena o texto do Fernando Serapião, e vale uma homenagem `a dama Charlotte Perriand, sem ela nao teriamos as lindas LCs, 1 2 3 4 5 6 ...
Ao mesmo tempo entro na contagem regressiva para fechar a pagina do Multiply, a hora é de revisitar tudo que tem de relevante lá, pra trazer pra cá.
Este é um bom começo para iniciar a pausa de uma página amiga de tantos anos, uma justa homenagem.
Namastê, Multiply, foi muito bom estar ali e fazer tantos amigos, aprender e compartilhar.
Namastê Pyko! querido amigo que me colocou em contato com esse universo, um caminho de crescimento pessoal e profissional


MULHERES, CADEIRAS E ALMOFADAS BORDADAS

Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 297 Novembro de 2004

Que relação pode existir entre a cadeira B306, de Le Corbusier e Charlotte Perriand, e a Bowls, de Lina Bo Bardi? As duas são peças de desenho moderno, criadas na primeira metade do século 20, com estrutura de aço tubular e assento de couro. Fechando o cerco, alguém poderia lembrar que ambas foram idealizadas por - ou com a participação de - mulheres.
Outra semelhança diz respeito ao uso: elas foram criadas para momentos de relaxamento - ninguém trabalha em uma cadeira daquelas. Mas algo mais as aproxima: duas fotografias que reúnem as criadoras e sua criação. Imagens que podem estar envolvidas por uma aura metafórica bastante utilizada pelos publicitários e que relaciona a mulher ao mobiliário doméstico.

“A senhora sabe, aqui nós não bordamos almofadas.”
Depois de dizer essa frase, Le Corbusier bateu a porta de seu estúdio em Paris na cara da jovem designer Charlotte Perriand. Aos 25 anos, ela havia adquirido certa fama depois de apresentar no Salão de Outono de 1927 o célebre Bar sous le Toit, um sótão adaptado para moradia que utilizava a linguagem da era da máquina. Na época, Charlotte não estava resolvida a trabalhar com design e pensava em ser agricultora. Foi quando um amigo convenceu-a a ler Por uma arquitetura, obra escrita pelo mestre franco-suíço. Encantada com o texto, e disposta a trabalhar com o arquiteto, ela procurou Corbusier no estúdio na rue de Sèvres, onde ouviu a frase humilhante. Corbusier mudou de opinião ao visitar o famoso projeto da designer, na companhia do primo Pierre Jeanneret. Naquele momento, percebeu que ela seria útil para o escritório, onde, afinal, Charlotte trabalhou por dez anos.

A colaboração dela no estúdio de Corbusier rendeu grandes frutos: ela cuidou dos interiores e dos acessórios de diversos projetos, entre os quais o Pavilhão Suíço na Cidade Universitária, o prédio do Exército de Salvação e o próprio apartamento do arquiteto, todos na capital francesa. Corbusier deve ainda a Charlotte o desenvolvimento da morada mínima, depois aproveitada na Unidade de Habitação de Marselha. Na área de design, ela participou da criação dos mais famosos móveis de Le Corbusier, desenhados para exposição no Salão de Outono de 1929. Fazem parte desse rol os modelos B301, B302, B306, LC2 e LC3, clássicos do design moderno, reproduzidos em todo o mundo até hoje.

Corbusier não demonstrou, nem antes, nem depois, grande interesse por mobiliário - ele sempre esteve mais preocupado com o urbanismo. A iniciativa de desenvolver esses móveis de estrutura tubular e couro foi inteiramente de Charlotte, e não se sabe a exata dimensão da participação do arquiteto nessas criações. Mas a preconceituosa frase dita por ele dá uma idéia do envolvimento da mulher com os assuntos domésticos e seus desdobramentos, na época. Para Corbusier, se houvesse uma mulher dentro do escritório, só poderia ser para tratar de assuntos menores, como mobiliário.

O trabalho de Charlotte no estúdio é uma conseqüência disso. Até hoje, queiram ou não as feministas, a atuação das mulheres é mais comum nas áreas de design e interiores do que em arquitetura e urbanismo. Nessa linha de raciocínio machista, o interesse feminino atual nada mais seria do que a modernização de seu papel ancestral na comunidade. Para o bem da sociedade, esse conceito, pelo menos no mundo ocidental, vem se transformando nas últimas décadas. No entanto, a associação ainda não foi rompida, e a relação da mulher com a cadeira continuou bastante utilizada - na publicidade, por exemplo.

Na foto mais lembrada de Charlotte - aquela que a maioria das publicações utilizou para ilustrar seu obituário, em 1999 -, ela está sentada na B306, a famosa chaise-longue criada pela equipe de Corbusier. A imagem - criadora e criação - foi feita para o Salão de Outono de 1929, onde a cadeira foi exposta pela primeira vez. Mas aí entra um dado novo: além de reforçar o vínculo feminino com a casa e os afazeres domésticos, a fotografia em preto e branco explora, em certa medida, a sensualidade. Naquele período, final da década de 1920, não era comum mostrar, de forma clara, poses sensuais. E a imagem de Charlotte é bastante provocadora: de saia, com as pernas para o ar, deixando o tornozelo à mostra. O rosto está virado, não se consegue ver nem o perfil. Não podemos identificá-la. Apesar de ser a idealizadora da peça, naquele momento Charlotte está representando o papel de mulher que esbanja sensualidade.

Vale lembrar outra criação que marcou o design do século 20: a cadeira Wassily, desenhada por Marcel Breuer em 1925, quando este tinha apenas 21 anos. Embora o móvel tenha sido idealizado para o apartamento de Wassily Kandinsky na Bauhaus, na mais célebre foto de época não é o pintor quem está sentado. Em seu lugar, na imagem clicada por Erich Consemüller está uma mulher. A modelo, provavelmente uma aluna da escola, não esconde nenhum dos atributos femininos - veste saia e blusa justa, calça sapatos de salto alto. No entanto, seu rosto está coberto por uma máscara criada por Oskar Schlemmer para o balé Triade. O que representaria aquela figura mascarada? Seria a personificação de uma mulher sem rosto, sem identidade? Teria a mesma intenção da face virada de Chalotte ou apontaria, na mesma característica do design da Bauhaus, o modelo da mulher na era industrial? Ou seria ainda a negação da relação da mulher com as coisas da casa?


Lina Bo Bardi na cadeira Bowls,
criada por ela nos anos 1950

Para engrossar o caldo, outra foto, outra cadeira e outra designer: a imagem de divulgação da cadeira Bowls, criada na década de 1950 por Lina Bo Bardi. A designer-arquiteta, nascida e formada em Roma, chegou ao Brasil em 1946. Nos primeiros anos, começou a desenhar móveis e fundou, juntamente com Giancarlo Palanti, o Studio de Arte Palma e depois a Móveis Pau-Brasil. Ao contrário de suas peças de madeira, a Bowls é praticamente européia: o design equivale àquilo que a Casa de Vidro Odete Lara. Curiosamente, a foto é mais comportada, tem clima menos sensual, e a atriz, com o rosto à mostra, parece representar o papel de dona-de-casa.

Teria Lina se inspirado em Charlotte? E por que ambas escondem o rosto? Interessante notar a diferença entre as três imagens: enquanto a francesa e a italiana esparramam-se em suas criações (que, de fato, propõem uso desinibido), a alemã está imóvel, rígida, e ainda se esconde atrás de uma máscara.

Mas a leitura dessas três imagens não teria o mesmo interesse se fotos semelhantes não continuassem tão em voga. Não pela relação entre criadoras e criações, mas entre mulheres e cadeiras. Um leitor atento de revistas e livros de design do mundo todo se indagará: por que modelos femininas, sempre bonitas e sensuais, são utilizadas na publicidade de cadeiras contemporâneas? Simples associação de beleza com beleza, ou entre móveis domésticos/afazeres do lar e mulheres? E estas importam-se com essa associação? Ou as cadeiras contemporâneas, de uso flexível para momentos de descontração, são criadas para exclusivo uso feminino, como se fossem vestidos?

São numerosos os exemplos. Para lembrar algumas mais antigas, as propagandas da Knoll para a cadeira Malitte, de 1966 (criada por Robert Sebastian Matta), ou mesmo da Bobo, de 1967, desenhada por uma mulher, a designer italiana Cini Boeri (que, aliás, parece ter escapado da tentação de posar sentada em uma de suas peças).


A Chair-Sculpture, criada por Allen Jones em 1969:
simbiose entre mulher e cadeira

Uma criação do artista Allen Jones explora esse universo de maneira audaciosa. A Chair-Sculpture, de 1969, é um dos móveis-escultura de Jones no universo da arte pop. Na peça, a mulher é a cadeira: um manequim com calcinha, botas longas e luvas foi colocado em desconcertante posição; nele foi amarrado um assento, enquanto as botas são o encosto.

De toda forma, a publicidade de cadeiras com homens seminus seria muito feia. Certamente, com as mulheres, tudo fica mais belo. Mas Charlotte deixou uma lição para as jovens designers: não façam cadeiras com almofadas bordadas.

Cassina, LINK
artigo integral de Fernando Serapião na revista Projeto
fundação Le Corbusier, LINK
Probjeto


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